Por Amina Di Munno

Apenas, aprendi a ter esperança

A partir dos primeiros anos deste nosso terceiro
milênio, a Poesia, na forma escrita, vem acompanhando
o percurso existencial de Cássio Junqueira. Suas
coletâneas publicadas no Brasil, e além do Oceano, já
são várias e a elas se acrescenta agora este novo livro,
Apenas, Aprendi a ter esperança .
Com estes versos o poeta dá continuidade e
ao mesmo tempo abre novos caminhos a uma produção
até hoje certamente peculiar. Encontram-se
aqui muitos dos temas que já o inspiraram e que têm
sido ditados pela busca de uma realidade que ultrapassa
o cotidiano e explora o plano transcendental,
numa perspectiva quase mística, à procura do divino.
Um elemento de certa maneira inédito aparece
logo no título, com o qual Cássio nos oferece uma
nova chave de interpretação do seu pensamento: a
esperança! “Eu sou quem sempre fui, / Mas não sou
como era antes. / Ainda trago a mesma melancolia. /
Apenas, / Aprendi a ter esperança”.
Em seus poemas permanece a dor, assim como a
solidão, “O medo; A busca, A busca do impossível; O desespero;” e, em contraposição, irrompe uma centelha
que não é quimera: “... a Salvação; A porta de saída:
O outro.”
Nada melhor que os próprios versos de Cássio
Junqueira para expressar esse complexo registro de
sensações e sentimentos que ocupam o sonho e a
alma de quem incessantemente põe questões sobre a
verdadeira perfeição: “Fazem a mais bela oração / Os
que pedem pra ser o que são: /Acreditam na virtude da
criação / E buscam verdadeira perfeição.”
As palavras recorrentes, Deus e Amor, conjugamse
em diferentes formas e tempos. Se Deus, espírito infinito
de todas as religiões, é beleza e alegria, “a fome
de Deus é beleza”. “O amor de Deus é alegria”, o amor,
em sua flexão nominal ou verbal, é fé: “É que eu só sei
acreditar no amor / E em mais nada”. “Ama. / Ainda
que não saibas / Por que amas, / Ama”. : Ou então “A
melhor arma / Contra o desamor /Ainda é o amor, /A
única”. E mais adiante: “Todo amor é bendito. / Todo
amor é infinito. / Se assim não for, / Não é amor”.
Esta nova coletânea de versos reafirma as melhores
qualidades da precedente produção poética de
Cássio, cujas temáticas, aliás, resultam enriquecidas
através do percurso íntimo, pessoal, de procura e de
luta ( “Estamos em guerra; / Ou vence o Amor / Ou
perdemos todos”) para tentar se aproximar do real:
“Existe um grau de maturidade em que eu posso me
enganar, mas não minto mais pra mim, ou seja, não
mais me engano deliberadamente. Caminhar pra isso
implica começar a me amar de verdade e assim me livrar
do narcisismo necessário. Só então eu passo a poder
ver o real, a me relacionar com ele, porque consigo
distingui-lo daquilo que eu gostaria que ele fosse... e
posso começar a amá-lo, e a agir para transformá-lo”.
É a atitude de quem, com grande lucidez, num
processo de introspecção e de autorreflexão, mesmo
estando ciente dos naturais limites epistemológicos,
perseverantemente indaga sobre o conhecer-se e conhecer
o universo com o qual se relaciona.
Gênova
Primeiro de novembro de 2017 (Dia de todos os Santos)
Amina Di Munno