Apresentação - Amina Di Munno

Por Viver Em Meio A Mortes

Os versos que Cássio Junqueira vem publicando,
com ritmo compassado, transformam-se cada vez
mais em ocasiões de reflexão e de renovação, de
aperfeiçoamento e consciência de si. Versos que
revelam o valor íntimo, a riqueza polissêmica, obtidos
principalmente por um número significativo de
metáforas e símbolos, a partir do próprio título. “Por viver
em meio a mortes”: é a causa do viver e não o fim, é
uma aprendizagem passando por perdas e decepções,
mas alimentadas sempre pela força épica do amor e
da esperança: “É feita de algo que você desconhece /
A minha esperança.” Ou ainda: “Somos indestrutíveis,
/ E, apesar das desgraças / Do mundo, / Cheios de
esperanças.”
E o amor? O amor é, sim, o amor universal, o amor
sem tempo, mas é também o amor do hic et nunc:
“Todo o amor que há no agora. / De repente o depois
demora, / Ou nem acontece.” O poeta sabe que o
tema labiríntico do tempo é extremamente flexível. Em
poesia o tempo pode ser deformado, acelerado, desa-
celerado, o tempo poético é por um lado um catalisador
da paixão amorosa e por outro um antídoto à morte.
Não haja morte em guerra, Cássio invoca a paz,
a liberdade, a felicidade, o silêncio: “Rasga o silêncio /
Apenas com as palavras / Com as quais tu abras / O teu
coração; / Com quaisquer outras, já não.” E a coragem,
numa época em que o mundo caminha para um terreno
escorregadio: “Tempo de mentiras / E tantas meias
verdades / Tempo de covardes.” Há fatos, emoção e
leveza nos poemas de Cássio. À leveza de sentimentos
associa-se a leveza expressiva, construída com palavras
simples, quase coloquiais, mas elas são o resultado de
um profundo conhecimento dos instrumentos métricos
e linguísticos. Com essas tonalidades o poeta insere-se
no rico panorama literário brasileiro.
Amina Di Munno
Macchia di Monte, Monopoli, 28 de Junho de 2019
Italiana, professora de língua e literatura portuguesa
e brasileira da Universidade de Gênova, crítica literária e tradutora.