Apresentação - João Barcellos

Por Viver Em Meio A Mortes

POR VIVER EM MEIO A MORTES
Ou, das ´porradas´ poéticas
com as quais aprendemos a viver.
E nem m´espanto quando recebo da editora
Valentina Ljubtschenko, que é também uma ´mão
amiga´, mais uma ´porrada´ de versos do inquieto
Cássio Junqueira.
Sim, uma ´porrada´, porque mexe ora com a
quietude, ora com a sensibilidade, de quem lê os
versos; e, também, porque, no todo, é uma poesia
tão humana que nos arremessa para realidades nem
sempre confrontadas psicologicamente.
Os versos de um dos poemas dizem(-nos) que
“A gente não briga,/ Não cai em intriga,/ Levanta a
bandeira da paz.../ Simplesmente”, e não é um dizer
por dizer desabafado, é um cantar poético a desafiar(-
nos) para a vivência fraterna que constrói a paz. Mais
adiante: “Eles declaram guerra entre a gente/ E a gente
não faz./ Amemo-nos:/ Nem mais nem menos”. É
verdade. A todo o instante somos confrontados com a
morte psicológica da pessoa/vida...
Nesta poética intitulada “por viver em meio a
mortes”, Cássio Junqueira é ele-mesmo, o intelectual diante das conjunturas ideológicas que permeiam o
nosso viver cotidiano.
Escolhi este poema, dito “poema para um irmão”,
por considerá-lo um divisor d´águas sociopolíticas. Ora,
a pessoa não é poeta por acaso, nasce com o dom e
aplica-o na circunstância que lhe é peculiar e naquela
que outras pessoas lhe fazem chegar. É o socrático
processo da identificação de uma filosofia que o é pela
experiência vivida. Eis aqui a poesia como ferramenta
para uma filosofia de transparências humanas.
No amor como no ódio existe uma base comum:
a paixão. Se um dia vemos algo e (por ele/ela) sentimos
algo, isso identifica uma vivência pessoal, intransferível.
Anote-se o que o poeta nos diz... “Não, você não
mudou.../ Mudou meu jeito de te olhar.../ Não, não foi
você...“ (in “mais distante de você”). Em tal vivência social
verificamos uma filosofia politicamente atravessada
que retira, muitas vezes, o suporte romântico para
exibir somente a paixão, nua e crua, extremada. É
assim, e retorno a Sócrates, que as pessoas mais levam
´porrada´ da vida. Entretanto, a pessoa/poeta lê para
interpretar, sensibiliza o conteúdo, um processo que
Cássio Junqueira domina e nos dá de ´porrada´ em
´porrada´ poética.
Já nos ´finalmente´, o poeta mostra o desencanto
com o viver que o atormenta, porque um cotidiano
de amor e desamor, e mais ódio do que desamor.
“Nossa Senhora,/ A Esperança,/ Dizei-me, Senhora:/
Se o desamor não se cansa/ De tanto desamar,/ Em que hei de acreditar?!/ Como esperançar?!/ Haverá a
mudança?!/ Chegará a hora?!/ Dizei-me, Senhora:/
Quando é que o amor/ Será livre para amar?!”. E uma
verdade: vivemos entre estórias para contar e uma
história para ser vivida. A escolha nem sempre é uma
opção... “Tempo de mentiras/ E tantas meias verdades:/
Tempo de covardes” [in “2019”}. Sim, porque a covardia
alimenta a corrupção d´almas, o limiar de uma
humanidade desumanizada, capaz de dizer que ama
para destruir.
Ao ler “por viver em meio a mortes” lembrei, no
meu instinto poético e cineclubista, de personagens dos
filmes “cria cuervos”, de Carlos Saura, e “the shoes of
the fisherman” (= as sandálias do pescador), de Michael
Anderson: em ambos está a metalinguagem, pessoal
institucional, que cria a covardia a par da quietude que
desumaniza, violenta a alma.
Por isso, a inquietude de Cássio Junqueira em
suas ´porradas´ poéticas é uma leitura bem-vinda, a
sinalizar que existe vida além das ideologias extremadas
e dos ódios d´amor mal resolvido.
BARCELLOS, João
Escritor, Pesquisador de História, Conferencista.
Hoje, por acaso, dia dos namorados, 12 de junho de 2019.
Pelos poemas aqui citados, um abraço a todas e todos que amam.